O que é mais infeliz? Ser só ou sentir-se só? Não basta sê-lo, mas é necessário, também, senti-lo, encarná-lo, vivenciá-lo como tal? Não nos parece, assim, que o sentimento acrescenta algo ao ser (deste ou daquele modo, isto ou aquilo)? Não nos parece, assim, que a realidade, em si mesma, nada significa, não nos imputa nada? Pois é, meu caro leitor. Navegamos por esses mares turbulentos e descobrimos que os nossos mastros não lhes são páreos; afinal, não foram preparados para ventos tão fortes, e os cascos, já rachando, não foram preparados para essas ondas, tão potentes e tão pesadas. Sabemos que os nossos sentimentos nos permitem estar em situações que chamamos de significativas, porque, de uma forma ou de outra, elas adquirem um significado para nós. Sabemos que, além de tudo, esse significado possui múltiplas dimensões e podemos vivenciá-lo, em nosso próprio drama, como uma miríade de possibilidades, as quais fazem outras possibilidades chocaram-se entre si e gerarem outras, e mais outras e outras possibilidades. É, sim, um jogo vertiginoso, mas que permite, ao mesmo tempo, encontrarmo-nos com nós mesmos ou, então, perdermo-nos nesse labirinto.
Pensamentos
terça-feira, 17 de julho de 2012
Sobre pensar e pensar sobre mim
O que sou eu, afinal? Não consigo me pensar sozinho. Aos filósofos, esse parece ser um assunto já muito comum e de fácil arguição, mas e a mim? Por que importa um assunto desses a mim? Por que eu devo pensar sobre ele, tomar o tempo e usá-lo para refletir sobre esse assunto em particular? E por que fui afetado por esse assunto, por que, antes de qualquer coisa, ele foi por mim escolhido? Por que ele, de alguma maneira, veio a mim, como que ex machina? Certamente, toda a minha conformação, que implica em minha formação histórica e sua presença em um horizonte aberto de possibilidades determinantes, ou, dito de outra forma, na sedimentação de uma série de possibilidades que possibilitam a abertura de outra série de possibilidades, mas não de outras, é que me possibilita pensar sobre ele, ao passo que impossibilita uma infinidade de outros muitos temas sobre os quais pensar e até mesmo a possibilidade do não-pensar. Mas essa conformação implica a mim? O que sou no meio da conformação? Apesar de tudo, apesar de toda a mudança que ocorre, pareço permanecer o mesmo, como seu nucleus vivendi. [...]
Não posso me pensar sem o outro. Quando me penso, apesar de todas as minhas tentativas de me livrar daquilo que já aprendi, não consigo me livrar das categorias que adquiri pela tradição; afinal, o próprio pensamento é conformativo. [exemplos]. Mas não se trata apenas da conformação do pensamento. Quando quero me definir, sempre me apóio no exterior, na vida em comunidade.
sábado, 23 de abril de 2011
Que é ser feio?
– Por que Deus me fez tão feio assim? – Perguntou o jovem.
– Deus faz somente o bem. – Disse o pastor.
– É bom ser feio?
– Todas as coisas criadas por Deus são belas e boas.
– Mas por que as pessoas dizem que sou feio?
– Porque elas têm traves nos olhos.
– Isso quer dizer que elas não veem o bem?
– Isso mesmo, meu garoto. Elas não sabem ver o bem.
– Mas isso não será mau?
– Sim. Creio que sim.
– E por que Deus o permitiu?
– Porque Ele quer que aceitemos a Sua verdade, o seu caminho, de todo o nosso coração. Nós pecamos.
– Não entendo, pastor. Eu só queria ser bonito, ser visto como bonito, ter alguém que me ache bonito e me ame. Eu quero só isso.
– Você não precisa ser amado por sua beleza.
– Quer dizer que sou feio e devo ser amado assim? Mas ninguém ama um feio!
– Deus o ama.
E quando não há sequer um fio de beleza? Deixará de haver, também, um mínimo fio de esperança? Se houvesse, porventura, um único caminho para que a vida fosse realizada, um único 'destino', por assim dizer, então, sim, não haveria esperança. Mas não há nada de mais contrário à esperança do que o dito destino, não há nada de mais paradoxal do que a fé em um desígnio necessário, de um propósito inerente, em conjunção com um julgamento posterior com base nas decisões em vida. Nesse caso, não há, também, o pecado, ou a virtude. Tudo desmorona. Em retorno à questão, nos parece que sempre haverá a possibilidade de esse nosso desejo (o de ter a nossa própria beleza reconhecida por outrem) ser frustrado. Mas isso não aniquilará, em absoluto, toda a esperança.
Embora necessitemos, pelo menos em princípio, desse aspecto de nossa sexualidade que é a beleza carnal e a atividade que imediatamente se liga a ela, a saber, o coito, não é ele que nos diz quem efetivamente somos e o que podemos. Não é o coito que define a nossa existência. "A maioria dos animais que copulam experimentam o prazer em um só sentido; satisfeito o apetite, nada mais importa", disse o Monsieur Voltaire certa vez. Não somos tal como esses animais; diferentemente, temos uma miríade de maneiras para experimentarmos o prazer, sendo uma delas – e a mais louvável de todas – a arte. Mesmo em terra, essa "beleza" não é a totalidade de nossa existência: a estética de existência não é meramente a estética do simulacro, da aparência, e muito menos uma que se refira tão-somente ao corpo e ao coito e se esqueça de toda a possibilidade de nossas realizações. Quem dirá que a vida de um Gandhi não foi bela? Quem dirá que as invenções de N. Tesla e as elucubrações de um Sir I. Newton não foram belas, que as suas vidas não servem, assim, de exemplo como belas vidas? Temos a possibilidade de fazermos a nós mesmos tal como o artista realiza a sua arte. E não haverá, é claro, nesse caso, uma existência dita "feia", "grotesca", porque, afinal, existimos em nossos limites. O que nos resta é imergir nessa existência e vivermos dentro dos limites que nos são fornecidos, das possibilidades que nos são dadas e as quais modificamos, construindo muitas e muitas outras. Nesse sentido, a vida não é senão uma arte e a sua beleza não se reduz a essas contingências da aparência corporal, tão efêmeras. Nós somos essa construção, uma que não é moderna, gótica, vitoriana, gregoriana, pós-moderna, ou psicodélica, mas individual par excellence. Somos quem somos e quem podemos ser. Certas vezes, é necessário insistir para que se possa existir. E se há uma política dessa existência, essa deve ser a de uma cooperação inclusiva e integrativa, de aproveitamento das belezas, das possibilidades individuais; quer dizer, uma em que o imperativo seja: "Existe (à tua maneira)!", em que a contingência seja o universal (um reconhecimento universal da particularidade).
A feiúra, na aparência corporal em especial, se mostra, assim, como o mero contragosto: o contragosto de um sistema de coordenadas que define o que é belo, como uma pessoa deve ser, e que, assim, regra o que e quem é desejável, restando ao feio o caráter de rejeitado. Não se trata de um destino, de uma marca inexorável, como aquela do juiz que decreta uma condenação eterna. A existência é, afinal, temporal e a sua marca é a escolha, o manejar das contingências do mundo. Se é, portanto, a feiúra uma rejeição, não deve ser entendida como uma desintegração: deve-se atentar para o fato de que há outros meios de se fazer belo e desejável. (E não precisamos apelar ao mercado estético, o das plásticas e maquiagens).
Embora necessitemos, pelo menos em princípio, desse aspecto de nossa sexualidade que é a beleza carnal e a atividade que imediatamente se liga a ela, a saber, o coito, não é ele que nos diz quem efetivamente somos e o que podemos. Não é o coito que define a nossa existência. "A maioria dos animais que copulam experimentam o prazer em um só sentido; satisfeito o apetite, nada mais importa", disse o Monsieur Voltaire certa vez. Não somos tal como esses animais; diferentemente, temos uma miríade de maneiras para experimentarmos o prazer, sendo uma delas – e a mais louvável de todas – a arte. Mesmo em terra, essa "beleza" não é a totalidade de nossa existência: a estética de existência não é meramente a estética do simulacro, da aparência, e muito menos uma que se refira tão-somente ao corpo e ao coito e se esqueça de toda a possibilidade de nossas realizações. Quem dirá que a vida de um Gandhi não foi bela? Quem dirá que as invenções de N. Tesla e as elucubrações de um Sir I. Newton não foram belas, que as suas vidas não servem, assim, de exemplo como belas vidas? Temos a possibilidade de fazermos a nós mesmos tal como o artista realiza a sua arte. E não haverá, é claro, nesse caso, uma existência dita "feia", "grotesca", porque, afinal, existimos em nossos limites. O que nos resta é imergir nessa existência e vivermos dentro dos limites que nos são fornecidos, das possibilidades que nos são dadas e as quais modificamos, construindo muitas e muitas outras. Nesse sentido, a vida não é senão uma arte e a sua beleza não se reduz a essas contingências da aparência corporal, tão efêmeras. Nós somos essa construção, uma que não é moderna, gótica, vitoriana, gregoriana, pós-moderna, ou psicodélica, mas individual par excellence. Somos quem somos e quem podemos ser. Certas vezes, é necessário insistir para que se possa existir. E se há uma política dessa existência, essa deve ser a de uma cooperação inclusiva e integrativa, de aproveitamento das belezas, das possibilidades individuais; quer dizer, uma em que o imperativo seja: "Existe (à tua maneira)!", em que a contingência seja o universal (um reconhecimento universal da particularidade).
A feiúra, na aparência corporal em especial, se mostra, assim, como o mero contragosto: o contragosto de um sistema de coordenadas que define o que é belo, como uma pessoa deve ser, e que, assim, regra o que e quem é desejável, restando ao feio o caráter de rejeitado. Não se trata de um destino, de uma marca inexorável, como aquela do juiz que decreta uma condenação eterna. A existência é, afinal, temporal e a sua marca é a escolha, o manejar das contingências do mundo. Se é, portanto, a feiúra uma rejeição, não deve ser entendida como uma desintegração: deve-se atentar para o fato de que há outros meios de se fazer belo e desejável. (E não precisamos apelar ao mercado estético, o das plásticas e maquiagens).
sexta-feira, 22 de abril de 2011
A carta (i)
Eu estava com aquela carta recém chegada dos correios em minha mão direita. Hesitava em abri-la. O remetente apenas se dizia "T. A.", escrito em caneta vermelha e com uma grafia rebuscada, sem me permitir saber quem realmente era, criando-me essa insolente sensação de curiosidade e de ansiedade, que não ousava me abandonar. Tentava colocá-la contra o sol – que, estranhamente, era pouco àquela hora do dia – e ver o conteúdo, mas o remetente havia tido o minucioso cuidado de colocar um papel cartolina, aparentemente em branco, para que eu não pudesse assim ver o conteúdo da misteriosa carta sem abri-la. Tudo parecia premeditado. Não queria abri-la, não agora, no momento em que as coisas não estavam nada boas: temia que fossem as piores notícias desse mundo, embora não pudesse fazer conexão alguma entre isso e aquelas duas letras – 'T' e 'A'. Resolvi deixar aquela carta em minha escrivaninha, bem debaixo de minha agenda, para que eu pudesse – quem sabe – me atrever a lê-la mais tarde. No momento, eu sentia que precisava sair dali, tomar um ar lá fora, dar uma volta pela cidade e refrescar a minha cabeça. Estava tudo tão confuso. Ainda mais porque havia perdido muita, muita coisa, nos últimos dias. E nada o poderia restituir. Nada.
– Bom dia, patrão. – disse o porteiro.
– Bom dia, seu Carlos. – respondi, ainda atormentado por aquela situação, que não sabia mais se era anterior, futura, presente, eterna. Cabisbaixo, resolvi, contudo, ser gentil com o meu amigo Carlos: – E como está você, meu amigo? Aproveitou muito bem o feriado?
– Opa! Com certeza, doutor. Me dediquei à minha esposa, à minha família. Nada melhor! E o senhor?
– Muito bem. Muito bem. Devo ir agora. Nos vemos mais tarde, seu Carlos. – Depois disso, ouvi alguma coisa, talvez um "até", ou um "passar bem", mas não posso estar certo; afinal, já não não mais me dizia respeito. Estava pensando em quem poderia ter me enviado aquela maldita carta, que não poderia vir em hora pior. Eu sabia que deveria parar de pensar naquilo, porque tinha, ainda, um longo dia de trabalho pela frente, mas não era, infelizmente, algo que me parecia possível. "Aquela carta", pensava comigo mesmo, "ainda vai arruinar o meu dia. Por que raios não me mandaram essa carta antes, ou talvez depois? Deve ter algo a ver com os últimos acontecimentos. Deve ter...". E continuei caminhando rumo a um bazar próximo, sem saber bem o que havia à minha volta, sem prestar a mínima atenção a qualquer sinal (da rua, do clima, das pessoas). Queria, somente, comprar algo para comer e beber para, depois, voltar à minha casa e trabalhar.
Cheguei ao bazar. Entrei e me dirigi lentamente ao setor de frios e congelados – buscava um lanche pronto, algo como uma pizza, e, claro, uma cerveja. Encontrei o que procurava, embora não ao preço que esperava, e me dirigi ao caixa, olhando para os produtos das gôndolas e vendo alguns "T" e alguns "A" concatenados nos rótulos dos produtos, tentando resolver aquele meu enigma. Nada que resolvesse o meu problema. Um produto, porém, me chamou a atenção, sem eu saber exatamente o motivo. Eu estava em frente de uma tinta de cabelo, com uma bela mulher ilustrando o rótulo, que me hipnotizava. Ela me lembrava... Sim, ela me a lembrava. Quando o percebi, forcei a minha saída daquele lugar e me dirigi o mais rápido possível ao caixa.
– São vinte e cinco reais e setenta centavos, senhor.
– Oh, certo. – Havia achado aquilo um pouco caro. Não me lembrava dos preços, mas sabia que havia algo de errado. Pela pressa de sair dali, nem havia conferido as minhas sacolas, nem havia parado pra pensar outra vez. Simplesmente coloquei a mão no bolso, retirei a carteira e, dela, o dinheiro. – Aqui está.
Quando saí, vi aquele céu fortemente escurecido, marcado por aquelas nuvens carregadas, e um vento forte, bem frio, que surrava o meu rosto. Folhas e papéis, tudo estava voando. As pessoas estavam apressadas, andando mais rápido, com seus olhos arregalados, olhando para o céu. Outras apenas pisavam fundo no acelerador de seus carros. Rapidamente, as ruas ficavam vazias. Era um chamado. Não havia tempo a perder. Eu também deveria ir à casa o mais rápido possível.
quarta-feira, 24 de novembro de 2010
Outro
Este é só mais um blog, mais um local de escrita onde posso registrar (ou será local de registro onde eu possa escrever?) o que é meu (neste caso, os meus Pensamentos). Já possuo um blog para divulgação de informações (novidades, entre outras coisas) e outro para fazer anotações e comentários. De uma hora a outra, um deles fica abandonado e o outro passa a ser o meu projeto e o centro de minha atenção. Neste momento, o centro de minha atenção -- o que combina com um final de ano -- são os meus Pensamentos. Leio pouco nos últimos dias, principalmente devido à grande quantia de tarefas da Universidade, e, ainda que mantenha os meus projetos acadêmicos, não tenho mais tanta inspiração para as anotações e as elucubrações em cima deles. As grandes divagações sistemáticas também estão em baixa neste momento. Por outro lado, vivo um momento em que os eventos da vida me guiam para a reflexão, não obstante menos comprometida, e para o sentimento. O meu modo de ver o mundo foi redefinido, e o foi por um sentimento que me incendiou a alma. É um sentimento brando e, talvez, oceânico, ou mesmo divino, com o qual me comprometo agora. O pensar talvez seja recompensado mais tarde, porém não é o que importa no momento. A minha alma se vê ampliada, donde eu possa me sentir melhor. Hoje, vejo o verde do verde, a vida da vida, a felicidade que é própria da felicidade, entre outras coisas. Não sou capaz de explicar. Mas, ainda assim, não é com o pensamento que me comprometo, mas com a vida. É com este espírito que resolvi criar mais um blog. Cada blog, uma temática. A temática deste blog se refere muito mais ao tipo de registros que aqui firmarei do que ao seu conteúdo propriamente dito. Trata-se, evidentemente, de registros de meus pensamentos, dos mais intuitivos aos mais racionais. Busco aqui registrar tudo o que invade a minha alma e que pode significar alguma coisa, compartilhada ou não. Busco qualquer centelha de significado, pois, de tal modo, não só registro, mas também amplio a minha visão. Busco escrever, porque, assim, a minha alma se enaltece e tranquiliza. Que as palavras que aqui eu puder registrar tenham ao menos a característica de poder comunicar, pois não sei se além disto elas podem algo; no entanto, se elas forem capazes de algo mais, gostaria que elas pudessem encantar, pois assim poderia transmitir como me sinto agora perante o mundo. Eu gostaria de tornar este sentimento tão belo um sentimento eterno e acessível a quem puder também o sentir.
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