sábado, 23 de abril de 2011

Que é ser feio?

– Por que Deus me fez tão feio assim? – Perguntou o jovem.
– Deus faz somente o bem. – Disse o pastor.
– É bom ser feio?
– Todas as coisas criadas por Deus são belas e boas.
– Mas por que as pessoas dizem que sou feio?
– Porque elas têm traves nos olhos.
– Isso quer dizer que elas não veem o bem?
– Isso mesmo, meu garoto. Elas não sabem ver o bem.
– Mas isso não será mau?
– Sim. Creio que sim.
– E por que Deus o permitiu?
– Porque Ele quer que aceitemos a Sua verdade, o seu caminho, de todo o nosso coração. Nós pecamos.
– Não entendo, pastor. Eu só queria ser bonito, ser visto como bonito, ter alguém que me ache bonito e me ame. Eu quero só isso.
– Você não precisa ser amado por sua beleza.
– Quer dizer que sou feio e devo ser amado assim? Mas ninguém ama um feio!
– Deus o ama.

E quando não há sequer um fio de beleza? Deixará de haver, também, um mínimo fio de esperança? Se houvesse, porventura, um único caminho para que a vida fosse realizada, um único 'destino', por assim dizer, então, sim, não haveria esperança. Mas não há nada de mais contrário à esperança do que o dito destino, não há nada de mais paradoxal do que a fé em um desígnio necessário, de um propósito inerente, em conjunção com um julgamento posterior com base nas decisões em vida. Nesse caso, não há, também, o pecado, ou a virtude. Tudo desmorona. Em retorno à questão, nos parece que sempre haverá a possibilidade de esse nosso desejo (o de ter a nossa própria beleza reconhecida por outrem) ser frustrado. Mas isso não aniquilará, em absoluto, toda a esperança.
Embora necessitemos, pelo menos em princípio, desse aspecto de nossa sexualidade que é a beleza carnal e a atividade que imediatamente se liga a ela, a saber, o coito, não é ele que nos diz quem efetivamente somos e o que podemos. Não é o coito que define a nossa existência. "A maioria dos animais que copulam experimentam o prazer em um só sentido; satisfeito o apetite, nada mais importa", disse o Monsieur Voltaire certa vez. Não somos tal como esses animais; diferentemente, temos uma miríade de maneiras para experimentarmos o prazer, sendo uma delas – e a mais louvável de todas – a arte. Mesmo em terra, essa "beleza" não é a totalidade de nossa existência: a estética de existência não é meramente a estética do simulacro, da aparência, e muito menos uma que se refira tão-somente ao corpo e ao coito e se esqueça de toda a possibilidade de nossas realizações. Quem dirá que a vida de um Gandhi não foi bela? Quem dirá que as invenções de N. Tesla e as elucubrações de um Sir I. Newton não foram belas, que as suas vidas não servem, assim, de exemplo como belas vidas? Temos a possibilidade de fazermos a nós mesmos tal como o artista realiza a sua arte. E não haverá, é claro, nesse caso, uma existência dita "feia", "grotesca", porque, afinal, existimos em nossos limites. O que nos resta é imergir nessa existência e vivermos dentro dos limites que nos são fornecidos, das possibilidades que nos são dadas e as quais modificamos, construindo muitas e muitas outras. Nesse sentido, a vida não é senão uma arte e a sua beleza não se reduz a essas contingências da aparência corporal, tão efêmeras. Nós somos essa construção, uma que não é moderna, gótica, vitoriana, gregoriana, pós-moderna, ou psicodélica, mas individual par excellence. Somos quem somos e quem podemos ser. Certas vezes, é necessário insistir para que se possa existir. E se há uma política dessa existência, essa deve ser a de uma cooperação inclusiva e integrativa, de aproveitamento das belezas, das possibilidades individuais; quer dizer, uma em que o imperativo seja: "Existe (à tua maneira)!", em que a contingência seja o universal (um reconhecimento universal da particularidade).
A feiúra, na aparência corporal em especial, se mostra, assim, como o mero contragosto: o contragosto de um sistema de coordenadas que define o que é belo, como uma pessoa deve ser, e que, assim, regra o que e quem é desejável, restando ao feio o caráter de rejeitado. Não se trata de um destino, de uma marca inexorável, como aquela do juiz que decreta uma condenação eterna. A existência é, afinal, temporal e a sua marca é a escolha, o manejar das contingências do mundo. Se é, portanto, a feiúra uma rejeição, não deve ser entendida como uma desintegração: deve-se atentar para o fato de que há outros meios de se fazer belo e desejável. (E não precisamos apelar ao mercado estético, o das plásticas e maquiagens).

sexta-feira, 22 de abril de 2011

A carta (i)

Eu estava com aquela carta recém chegada dos correios em minha mão direita. Hesitava em abri-la. O remetente apenas se dizia "T. A.", escrito em caneta vermelha e com uma grafia rebuscada, sem me permitir saber quem realmente era, criando-me essa insolente sensação de curiosidade e de ansiedade, que não ousava me abandonar. Tentava colocá-la contra o sol – que, estranhamente, era pouco àquela hora do dia – e ver o conteúdo, mas o remetente havia tido o minucioso cuidado de colocar um papel cartolina, aparentemente em branco, para que eu não pudesse assim ver o conteúdo da misteriosa carta sem abri-la. Tudo parecia premeditado. Não queria abri-la, não agora, no momento em que as coisas não estavam nada boas: temia que fossem as piores notícias desse mundo, embora não pudesse fazer conexão alguma entre isso e aquelas duas letras – 'T' e 'A'.  Resolvi deixar aquela carta em minha escrivaninha, bem debaixo de minha agenda, para que eu pudesse – quem sabe  me atrever a lê-la mais tarde. No momento, eu sentia que precisava sair dali, tomar um ar lá fora, dar uma volta pela cidade e refrescar a minha cabeça. Estava tudo tão confuso. Ainda mais porque havia perdido muita, muita coisa, nos últimos dias. E nada o poderia restituir. Nada.
– Bom dia, patrão. – disse o porteiro.
– Bom dia, seu Carlos. – respondi, ainda atormentado por aquela situação, que não sabia mais se era anterior, futura, presente, eterna. Cabisbaixo, resolvi, contudo, ser gentil com o meu amigo Carlos: – E como está você, meu amigo? Aproveitou muito bem o feriado?
– Opa! Com certeza, doutor. Me dediquei à minha esposa, à minha família. Nada melhor! E o senhor?
– Muito bem. Muito bem. Devo ir agora. Nos vemos mais tarde, seu Carlos. – Depois disso, ouvi alguma coisa, talvez um "até", ou um "passar bem", mas não posso estar certo; afinal, já não não mais me dizia respeito. Estava pensando em quem poderia ter me enviado aquela maldita carta, que não poderia vir em hora pior. Eu sabia que deveria parar de pensar naquilo, porque tinha, ainda, um longo dia de trabalho pela frente, mas não era, infelizmente, algo que me parecia possível. "Aquela carta", pensava comigo mesmo, "ainda vai arruinar o meu dia. Por que raios não me mandaram essa carta antes, ou talvez depois? Deve ter algo a ver com os últimos acontecimentos. Deve ter...". E continuei caminhando rumo a um bazar próximo, sem saber bem o que havia à minha volta, sem prestar a mínima atenção a qualquer sinal (da rua, do clima, das pessoas). Queria, somente, comprar algo para comer e beber para, depois, voltar à minha casa e trabalhar.
Cheguei ao bazar. Entrei e me dirigi lentamente ao setor de frios e congelados – buscava um lanche pronto, algo como uma pizza, e, claro, uma cerveja. Encontrei o que procurava, embora não ao preço que esperava, e me dirigi ao caixa, olhando para os produtos das gôndolas e vendo alguns "T" e alguns "A" concatenados nos rótulos dos produtos, tentando resolver aquele meu enigma. Nada que resolvesse o meu problema. Um produto, porém, me chamou a atenção, sem eu saber exatamente o motivo. Eu estava em frente de uma tinta de cabelo, com uma bela mulher ilustrando o rótulo, que me hipnotizava. Ela me lembrava... Sim, ela me a lembrava. Quando o percebi, forcei a minha saída daquele lugar e me dirigi o mais rápido possível ao caixa.
– São vinte e cinco reais e setenta centavos, senhor.
– Oh, certo. – Havia achado aquilo um pouco caro. Não me lembrava dos preços, mas sabia que havia algo de errado. Pela pressa de sair dali, nem havia conferido as minhas sacolas, nem havia parado pra pensar outra vez. Simplesmente coloquei a mão no bolso, retirei a carteira e, dela, o dinheiro. – Aqui está.
Quando saí, vi aquele céu fortemente escurecido, marcado por aquelas nuvens carregadas, e um vento forte, bem frio, que surrava o meu rosto. Folhas e papéis, tudo estava voando. As pessoas estavam apressadas, andando mais rápido, com seus olhos arregalados, olhando para o céu. Outras apenas pisavam fundo no acelerador de seus carros. Rapidamente, as ruas ficavam vazias. Era um chamado. Não havia tempo a perder. Eu também deveria ir à casa o mais rápido possível.