Eu estava com aquela carta recém chegada dos correios em minha mão direita. Hesitava em abri-la. O remetente apenas se dizia "T. A.", escrito em caneta vermelha e com uma grafia rebuscada, sem me permitir saber quem realmente era, criando-me essa insolente sensação de curiosidade e de ansiedade, que não ousava me abandonar. Tentava colocá-la contra o sol – que, estranhamente, era pouco àquela hora do dia – e ver o conteúdo, mas o remetente havia tido o minucioso cuidado de colocar um papel cartolina, aparentemente em branco, para que eu não pudesse assim ver o conteúdo da misteriosa carta sem abri-la. Tudo parecia premeditado. Não queria abri-la, não agora, no momento em que as coisas não estavam nada boas: temia que fossem as piores notícias desse mundo, embora não pudesse fazer conexão alguma entre isso e aquelas duas letras – 'T' e 'A'. Resolvi deixar aquela carta em minha escrivaninha, bem debaixo de minha agenda, para que eu pudesse – quem sabe – me atrever a lê-la mais tarde. No momento, eu sentia que precisava sair dali, tomar um ar lá fora, dar uma volta pela cidade e refrescar a minha cabeça. Estava tudo tão confuso. Ainda mais porque havia perdido muita, muita coisa, nos últimos dias. E nada o poderia restituir. Nada.
– Bom dia, patrão. – disse o porteiro.
– Bom dia, seu Carlos. – respondi, ainda atormentado por aquela situação, que não sabia mais se era anterior, futura, presente, eterna. Cabisbaixo, resolvi, contudo, ser gentil com o meu amigo Carlos: – E como está você, meu amigo? Aproveitou muito bem o feriado?
– Opa! Com certeza, doutor. Me dediquei à minha esposa, à minha família. Nada melhor! E o senhor?
– Muito bem. Muito bem. Devo ir agora. Nos vemos mais tarde, seu Carlos. – Depois disso, ouvi alguma coisa, talvez um "até", ou um "passar bem", mas não posso estar certo; afinal, já não não mais me dizia respeito. Estava pensando em quem poderia ter me enviado aquela maldita carta, que não poderia vir em hora pior. Eu sabia que deveria parar de pensar naquilo, porque tinha, ainda, um longo dia de trabalho pela frente, mas não era, infelizmente, algo que me parecia possível. "Aquela carta", pensava comigo mesmo, "ainda vai arruinar o meu dia. Por que raios não me mandaram essa carta antes, ou talvez depois? Deve ter algo a ver com os últimos acontecimentos. Deve ter...". E continuei caminhando rumo a um bazar próximo, sem saber bem o que havia à minha volta, sem prestar a mínima atenção a qualquer sinal (da rua, do clima, das pessoas). Queria, somente, comprar algo para comer e beber para, depois, voltar à minha casa e trabalhar.
Cheguei ao bazar. Entrei e me dirigi lentamente ao setor de frios e congelados – buscava um lanche pronto, algo como uma pizza, e, claro, uma cerveja. Encontrei o que procurava, embora não ao preço que esperava, e me dirigi ao caixa, olhando para os produtos das gôndolas e vendo alguns "T" e alguns "A" concatenados nos rótulos dos produtos, tentando resolver aquele meu enigma. Nada que resolvesse o meu problema. Um produto, porém, me chamou a atenção, sem eu saber exatamente o motivo. Eu estava em frente de uma tinta de cabelo, com uma bela mulher ilustrando o rótulo, que me hipnotizava. Ela me lembrava... Sim, ela me a lembrava. Quando o percebi, forcei a minha saída daquele lugar e me dirigi o mais rápido possível ao caixa.
– São vinte e cinco reais e setenta centavos, senhor.
– Oh, certo. – Havia achado aquilo um pouco caro. Não me lembrava dos preços, mas sabia que havia algo de errado. Pela pressa de sair dali, nem havia conferido as minhas sacolas, nem havia parado pra pensar outra vez. Simplesmente coloquei a mão no bolso, retirei a carteira e, dela, o dinheiro. – Aqui está.
Quando saí, vi aquele céu fortemente escurecido, marcado por aquelas nuvens carregadas, e um vento forte, bem frio, que surrava o meu rosto. Folhas e papéis, tudo estava voando. As pessoas estavam apressadas, andando mais rápido, com seus olhos arregalados, olhando para o céu. Outras apenas pisavam fundo no acelerador de seus carros. Rapidamente, as ruas ficavam vazias. Era um chamado. Não havia tempo a perder. Eu também deveria ir à casa o mais rápido possível.
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